A ascensão da inteligência artificial na indústria da moda está provocando uma transformação radical, que promete alterar não apenas a forma como as marcas se comunicam com os consumidores, mas também a própria vida dos modelos. Com a capacidade de criar imagens realistas por meio de algoritmos, as empresas estão conseguindo reduzir drasticamente os custos, o que levanta uma questão crucial: até onde essa tecnologia pode ir antes de ameaçar a profissão de modelos humanos?
Marcas renomadas como Diesel, Calvin Klein e L’Oréal estão explorando o uso de réplicas digitais para maximizar a eficiência de suas campanhas. A Reuters entrevistou diretores de agências e analisou contratos que revelam exigências alarmantes, como a permissão para trocar rostos de modelos por versões geradas por IA e a criação de gêmeos digitais sem compensação adicional. Essa realidade pode levar à precarização do trabalho de modelos, que já sentem o impacto da redução de oportunidades na indústria.
O modelo Adot Gak, que já trabalhou com grandes marcas, expressou sua preocupação ao afirmar que, em um futuro próximo, “toda a indústria será apenas robôs” se não houver uma resposta ativa da classe. Enquanto empresas de moda rápida, como a Mango, adotam modelos gerados por IA em larga escala, marcas de luxo como a Moncler e Gucci avançam com cautela, mas a questão da ética no uso da tecnologia permanece em debate.
A inteligência artificial não apenas modifica imagens, mas também permite que marcas reutilizem características de modelos, sem a necessidade de novas sessões fotográficas. Patrick Staal, da Uniko Models, mencionou que algumas marcas estão pedindo autorização para alterar a aparência dos modelos após as sessões, o que levanta questões sobre a preservação da identidade e dos direitos dos profissionais.
Com o fechamento de estúdios fotográficos e a eliminação de postos de trabalho, a Zalando, maior varejista de moda online da Europa, é um exemplo claro de como a tecnologia pode gerar economia, mas à custa de empregos. A nova subsidiária da empresa, Scayle Studios, promete produzir imagens digitais a preços reduzidos, sinalizando que a pressão por inovação pode sobrepujar as preocupações com o futuro da força de trabalho humano.
Embora algumas legislações, como a Lei dos Trabalhadores da Moda em Nova York, busquem proteger os direitos dos modelos, a falta de regulamentação global deixa muitos profissionais vulneráveis a abusos. A fundadora da Model Alliance, Sara Ziff, alerta que o avanço da IA amplifica problemas existentes relacionados ao uso indevido das imagens, exigindo uma resposta mais robusta em termos de legislação.
Enquanto a indústria da moda navega por essas águas turvas, a questão central se torna: como equilibrar a inovação tecnológica com a preservação dos direitos e da dignidade dos profissionais que, até então, foram essenciais para o sucesso desse setor? O futuro dos modelos pode depender da resposta a essa pergunta e da capacidade da indústria de se adaptar a um novo paradigma impulsionado pela inteligência artificial.




